Eventos Meteorológicos Extremos e o Setor de FLV
Antes de qualquer viagem, a gente planeja, né?
Roteiro na mão, check nos kits de segurança (combustível, estepe, previsão do tempo), e até seguro viagem se a aventura for longe.
Sei que a analogia é simplista, mas a gestão de riscos climáticos na agricultura pode seguir mais ou menos a mesma lógica, só que a jornada agro não se desloca no espaço, mas no tempo entre o plantio e a colheita. E a paisagem? Cada vez mais complicada e extrema.
Sim, a agricultura, atividade profundamente dependente do clima, enfrenta desafios críticos diante da crescente intensidade de eventos extremos. Segundo a Confederação Nacional de Municípios (CNM), entre 2014 e 2023, os Municípios registraram 14.635 decretos municipais de anormalidade climática, causando um prejuízo total de R$ 287 bilhões na agricultura.
Para o setor de Frutas, Legumes e Verduras (FLV) – altamente sensível a variações climáticas – a falta de preparo pode significar perdas catastróficas, como degradação do solo, quebras de safra e rupturas na cadeia de abastecimento. Ou seja, para andar com segurança nessa estrada a agricultura precisa de um pouco mais que um bom mapa e de um “tapa” geral na suspensão.
Eventos meteorológicos recentes ilustram a urgência na adoção de atitudes concretas:
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Secas no Sudeste e Mato Grosso do Sul 2020/21: pior seca em 91 anos; reservatórios de hidrelétricas atingem mínimas históricas.
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Geadas de 2021: Uma massa polar atípica destruiu 30% das lavouras de café em Minas Gerais e São Paulo, além de cultivos de legumes, com perdas de R$ 5,8 bilhões.
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Enchentes em Santa Catarina (2022): Inundações comprometeram 40 mil hectares de maçã e cebola, gerando prejuízos de R$ 1,6 bilhão.
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Chuvas no Rio Grande do Sul (2023 e 2024): Em 2024, o impacto econômico estimado das chuvas extremas no setor agrícola gaúcho foi de mais de R$ 8,5 bilhões em perdas na produção, perto de R$ 0,5 bilhão em danos aos ativos agrícolas e aproximadamente R$ 3,7 bilhões em custos adicionais para recuperação de solos afetados pela erosão hídrica.
Esses eventos evidenciam a necessidade de uma gestão proativa de riscos climáticos.
O setor de infraestrutura faz gestão de seus riscos há muitas décadas, mapeando os perigos, diagnosticando sua frequência de ocorrência e os possíveis níveis de severidade da materialização dos seus impactos.
Essa gestão já evitou e evita todos os dias prejuízos bilionários para as empresas, para o ambiente e para a sociedade. Isso funciona em um porto, em uma plataforma de petróleo ou em uma usina nuclear. Obviamente, só ouvimos falar da gestão de riscos quando ela falha, como nos casos da Usina Ucraniana de Chernobyl ou do vazamento do petroleiro Exxon Valdez no Alasca.
Mas como é possível fazer essa gestão para os riscos climáticos na agricultura?
A Embrapa destaca quatro pilares para a gestão de riscos climáticos: Identificação, Avaliação, Tratamento e Monitoramento.
Seguindo essa lógica, eu recomendo a adoção de um sistema completo de gerenciamento de riscos climáticos, combinando Diagnóstico (análise do perfil meteorológico, avaliação da exposição e vulnerabilidade), medidas adaptativas preventivas (preservação de nascentes, plantio direto, realização de treinamentos de equipes e simulados de emergência), planejamento de ações em contingência (capacidade técnica e estrutural de resposta), além da elaboração de um plano de retomada da operação para o pós emergência.
Tecnologias Acessíveis para Adaptação Climática
Soluções inovadoras também estão democratizando a resiliência:
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Sensores e drones: Monitoram umidade do solo e saúde das plantas, alertando para riscos iminentes.
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Agricultura de precisão: Sistemas de irrigação por gotejamento reduzem consumo de água em até 40%. Saiba mais aqui.
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Plataformas de previsão: Apps como Climatempo e Agrymet oferecem alertas personalizados para produtores.
Linhas de crédito e subsídios também são aliados estratégicos:
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Programa ABC+: Oferece taxas subsidiadas para projetos de irrigação sustentável e recuperação de pastagens.
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PROAGRO: Cobre parte das perdas por eventos climáticos, com prêmios acessíveis para pequenos produtores, desde que a cultura e o período de plantio estejam alinhados com o determinado no Zoneamento Agrícola de Risco Climático – ZARC.
Ao integrar gestão de riscos, tecnologia e sustentabilidade, o setor pode transformar ameaças em vantagens. Como demonstram casos como o da Cooperativa Castrolanda (PR), que, após investir em biodigestores e energia renovável, reduziu custos e atraiu contratos internacionais.
Em resumo: O core business aqui é prever e se adaptar. Isso significa:
➔ Mapeamento fundamentado: Um diagnóstico preciso dos riscos climáticos, baseado em dados históricos, projeções e análise de vulnerabilidades específicas. Nada de viagem às cegas!
➔ Capacidade de adaptação: Estratégias robustas para minimizar os impactos. Isto é, investir em infraestrutura resiliente, tecnologias de precisão e práticas agrícolas adaptativas. É como levar casaco e protetor solar na mala.
➔ Plano de Contingência: O que fazer se a tempestade chegar? Protocolos claros e eficazes para resposta a emergências, incluindo a logística de recuperação pós desastre. Tem que ter um plano B (e C, se necessário!).
Na agricultura para uma viagem tranquila e lucrativa, um mapa bem detalhado, práticas de adaptação, equipamentos apropriados e um plano de contingência robusto são essenciais para enfrentar as condições climáticas cada vez mais imprevisíveis.
É preciso ter resiliência para navegar com sucesso pela jornada entre o plantio e a colheita. Bora elaborar um mapa bem fundamentado, desenvolver capacidade de adaptação e construir um plano de contingência eficiente pra viajar tranquilo?